domingo, 6 de outubro de 2013

O Banquete de Casamento


Hsi Yen
Taiwan, EUA - 1993
Direção: Ang Lee
Elenco: Ah - leh Gua, Sihung Lung, May Chin, Winston Chao
Drama

Muito antes de conquistar Hollywood com filmes como "Razão e Sensibilidade", "O Tigre e o Dragão", "O Segredo de Brokeback Mountain" e "As aventuras de Pi", o diretor Taiwanês Ang Lee, rodou em seu próprio país e sem grandes requintes de produção "O Banquete de Casamento", que é, no mínimo, inusitado.
O filme trata de homossexualismo sem se dirigir exclusivamente à comunidade gay, usando emoção e senso de humor.
A história brinca com as expectativas em torno de um casal gay formado pelo americano Simon e por Wai Tung Gao, um cidadão de Taiwan. A família de Wai está sempre sonhando com uma nora e um netinho, e o "filhão" - por sugestão do próprio namorado - acaba forjando um falso casamento com Wei Wei, uma artista plástica sem recursos.
O problema é que os velhinhos, com todas as suas fantasias, se instalam na casa dos rapazes, e as confusões se iniciam. Por caminhos tortuosos e sem que tudo seja explicitado, a farsa vem à tona. Com muita inspiração, o diretor - que também é co - autor do roteiro - acaba realizando um libelo poderoso contra o preconceito, com argumentos de muito maior alcance do que uma passeata de militância gay.
Foi vencedor do Urso de Ouro no Festival de Berlim em 1993 e finalista ao Oscar de melhor filme em língua estrangeira.

domingo, 29 de setembro de 2013

Assédio

Besieged
Reino Unido, Itália – 1998
Direção: Bernardo Bertolucci
Elenco: Thandie Newton, David Thewlis, Claudio Santamaria
Drama, Romance




A câmera de Bertolucci desfila suavemente pelo palacete romano herdado pelo pianista e compositor inglês Kinsky para mostrar a paixão que vai se desenvolver entre ele e a enfermeira africana Shandurai. Ela é sua empregada doméstica, fugida da África depois que o marido foi preso pelo regime ditatorial vigente no país e exilada na Itália, onde estuda medicina. Mesmo assim, limpa, cozinha e costura para o solitário Kinsky. A música clássica praticada pelo pianista e os sons africanos primitivos também dão o tom do romance e são o ponto de partida para a aproximação dos dois: Shandurai recebe presentes diários do patrão, o que a perturba e só faz lembrar ainda mais a condição em que o marido se encontra.
Quando Kinsky finalmente se declara e promete levá – la de volta à África, ela diz que só há um jeito de conquistar seu apreço: trazendo o marido de volta. O música passa a ignorar seu sentimento, mas não deixa de se deleitar com o jeito da amada – atitude que faz com que ela sinta vontade de se aproximar dele. A química entre os dois nos faz desejar o tempo todo que algo aconteça, mas o clima de tensão sexual permanece durante o filme inteiro em imagens e sons belíssimos de duas pessoas e culturas tão distintas tentando se unir.


domingo, 13 de maio de 2012

O Cinema Não Passa Sem Mães



As mães estão por toda a parte e são presenças perenes e indestrutíveis. Em "E.T." (1981), de Steven Spielberg, há um pai ausente, mas tem também uma mãe ativa (Dee Wallace) que controla toda a família.
Amor de mãe é assim: não respeita barreiras como cor, raça, doenças... Mãe de cinema que se preze é capaz de enfrentar a fome, o frio, a guerra, os soldados invasores, pelo amor da filha (Sophia Loren em "Duas Mulheres", 1961), curar filho autista como em "Meu Filho, Meu Mundo", 1979), superar uma relação tumultuada com a filha e estar ao lado dela no momento mais terrível de suas vidas (Shirley MacLaine, em "Laços de Ternura", 1983), não perder a esperança para manter a família unida durante uma tragédia nuclear (Jane Alexander, em "Herança Nuclear", 1983), tornar tolerável conviver com uma doença deformante (Cher, em "Marcas do Destino", 1985), usar todos os argumentos possíveis numa luta incansável e cruel para convencer a filha em não cometer o suicídio (Anne Bancroft, em "Noite do Desamor", 1989), fugir do inferno maometano com a filha pequena (Sally Field, em "Nunca Sem Minha Filha", 1991), ganhar o ódio de toda a comunidade científica ao pesquisar por conta própria um óleo miraculoso capaz de salvar a vida do filho e ajudar outros (Susan Sarandon, em "O Óleo de Lorenzo", 1992), renunciar com força e dignidade invejáveis, a grande chance de ser feliz ao lado do homem que realmente ama, por amor aos filhos (Meryl Streep, em "As Pontes de Madison", 1995), enfrenta o incomum e os fantasmas do passado em memória do filho morto, numa das viagens mais surpeendentes e inesquecíveis do cinema (Cecília Roth, em "Tudo Sobre Minha Mãe", 1999), não se importa com o ridículo para realizar o grande sonho da filha (Toni Collette no engraçado, absurdo e profundo "Pequena Miss Sunshine", 2006), não medir esforços para ajudar o filho postiço a ser um grande campeão do esporte (Sandra Bullock, como a socialite desocupada que tem seu instinto materno despertado em "Um Sonho Possível", 2009).

Assim como na vida real, as mães do cinema também tem seus defeitos, sendo culpadas pelos traumas dos filhos. Em "Shirley Valentine", 1989, Pauline Collins é uma dona de casa que sufocada pelo marido e pelos filhos egoístas, larga tudo e vai para a Grécia. Pior: gosta tanto da ideia que pensa em não voltar mais. Em "Lembranças de Hollywood", 1991, Shirley MacLaine faz uma estrela de cinema que envolvida demais com seus problemas não presta atenção na filha viciada em drogas. Na comédia "Esqueceram de Mim I e II", Catherine O'Hara faz uma mãe dispersa e corroída pelo remorso de ter esquecido o filho durante o natal. Num caso mais extremo de imperfeição materna temos a mãe opressora, monstruosa e violenta de "Preciosa", 2009, uma atuação impagável e oscarizada de Mo'Nique.


O cinema italiano conhecido por sua grande expressividade também foi capaz de fazer retratos inesquecíveis de mães como em "Belíssima", 1951, onde Anna Magnani é a mãe que deseja que a filha seja atriz, Sophia Loren, a mãe que está sempre engravidando para escapar da cadeia em "Ontem, Hoje e Amanhã", 1963, e depois Laura Morante, a mãe enlutada de "O Quarto do Filho", 2001.

Corajosas e egoístas, amorosas ou detestáveis, as mães do cinema são capazes de tudo. Atrapalharam ou ajudaram. Eram presentes ou ausentes. Mas sem mães o cinema não pode passar. É a arte imitando a vida!

domingo, 12 de setembro de 2010

Nosso Lar




O filme que em apenas quatro dias de exibição atingiu a marca de 1 milhão de espectadores, é inspirado na obra homônima de Chico Xavier e narra a vida após a morte. Dirigido por Wagner de Assis (o mesmo diretor de A cartomante) a produção custou 20 milhões de reais e é considerada a mais cara já realizada no país.
Com uma narrativa edificante, Nosso Lar mostra as dificuldades do antipático doutor André Luiz (Renato Prieto) em aceitar que não pertence mais ao mundo material - sua morte, a sofrida temporada numa espécie de ''purgatório'' e a chegada do socorro espiritual, que o transporta para uma dimensão superior, a colônia Nosso Lar.
A produção ainda conta com um sofisticado trabalho de direção de arte, que pode ser conferido durante as cenas do ''purgatório'', na cidade espiritual e ainda na casa onde o protagonista morou durante sua passagem pela Terra.
Inspirada pelo sucesso de filmes como Bezerra de Menezes e Chico Xavier (recorde de público esse ano), a produção considerada ambiciosa para os padrões do cinema brasileiro contou ainda com a direção de fotografia de Ueli Steiger (O dia depois de amanhã) e a trilha sonora assinada por Philip Glass (O show de Truman, Kundun).
Didático, o filme tem claramente uma preocupação de formação, apresenta o espiritismo e o explica em detalhes, além de se permitir poucos momentos de pieguice.
Esforçado, Nosso Lar não desaponta os espíritas e ainda é capaz de reunir simpatizantes da causa.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Bird


Clint Eastwood escolheu um projeto ambicioso para filmar: biografar o genial saxofonista Charlie Parker, o Bird.


Embora contida, a narrativa dá o tom exato da tragédia pessoal de ''Bird'', que morreu devido ao excesso de álcool e drogas aos 34 anos. Forest Whitaker está perfeito como Parker, em sua entrega absoluta à música, sua loucura e seus dramas familiares.


Esnobado nos Estados Unidos e ovacionado na Europa - sagrou - se vencedor de dois prêmios em Cannes (Melhor Diretor para Clint - que aqui nada lembra seus tempos de coubói - e Ator para Whitaker) - é um filme que merece ser apreciado não apenas por suas qualidades cinematográficas mas também pela música ainda perene de Charlie Parker - o ''Bird''.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Quando Cannes se rendeu a Meryl


Atriz esbanja classe em ''Um grito no escuro''Saiu há algum tempo em dvd pela Playarte, mas vale a pena comentar.
Uma dica: é melhor assistir ao filme em versão original (em inglês) para apreciar as densidades e sutilezas da interpretação de Meryl Streep. Ela deveria ser candidata eterna ao Oscar de melhor sotaque. Meryl adora criar sotaques para as personagens que interpreta. A heroína de Um grito no escuro é Australiana. É o que basta para Meryl caprichar no sotaque. Caprichou tanto que ganhou o prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes -89.
Ela interpreta Lindy Chamberlain, acusada de matar a própria filha em 1982. Lindy e o marido saíram com a criança para um piquenique. O bebê desapareceu. Só em 1987 surgiram provas de que Lindy poderia ser inocente. O filme do diretor Fred Schepisi aborda aquele que foi um dos maiores erros da história da justiça australiana. Lindy foi condenada porque parecia culpada. Seu crime foi permanecer impassível no tribunal. Religiosa, Lindy confiava na justiça divina e aceitou o trágico destino da filha. Sua frieza foi considerada inadequada na era da televisão, quando as pessoas lavam roupa suja em público e os sentimentos mais íntimos são exibidos em horário nobre em troca de 15 minutos de fama.
Meryl é um caso à parte. É o que realmente faz a diferença no filme. Desde o sotaque cuidadoso neozelandês, os modos severos, a aparência caipira, a total falta de sentimentalismo, tudo nela leva à compreensão dos motivos pelos quais Lindy, sem querer, despertou tanto ódio nas mães do país. A tragédia não terminou quando Lindy foi solta. Muitas pessoas continuaram não acreditando em sua inocência. Ela era insultada e agredida nas ruas. O caso foi levado para a Suprema Corte de Apelação da Austrália. Três juízes admitiram o erro da justiça que Schepisi denuncia.